Seis longas-metragens compõem a seleção e têm estéticas arrojadas na aproximação a temáticas importantes no cenário audiovisual brasileiro; com a presença de cineastas estreantes e veteranos, filmes serão avaliados pelo Júri Jovem e concorrem ao Troféu Carlos Reichenbach

Grande admirador de Oswald de Andrade, o cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012) adotou do “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” a expressão libertária que espalhou ao longo de toda a sua carreira. No texto de 1924, o escritor resumia: “Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres”. De Oswald para Carlão, de Carlão para a Mostra de Cinema de Tiradentes: o maior evento do país dedicado ao audiovisual brasileiro promove a Mostra Olhos Livres. A seção reúne seis longas-metragens que se assemelham por abordagens estéticas arrojadas, ao se desprenderem de compromissos mais vinculados ao mercado e fazerem das possibilidades da linguagem suas ferramentas lúdicas e criativas.

 Com curadoria de Lila Foster e Victor Guimarães e coordenação de Cléber Eduardo, a seleção deste ano inclui os seguintes filmes: “Tragam-me a cabeça de Carmen M.” (RJ), de Felipe Bragança e Catarina Wallenstein; “Superpina: Gostoso é Quando a Gente Faz!” (RE), de Jean Santos; “Trágicas” (RJ), de Aída Marques; “Currais” (CE), de David Aguiar e Sabina Colares; “Parque Oeste” (GO), de Fabiana Assis; e “Calypso” (RJ), de Rodrigo Lima e Lucas Parente.

 A curadora Lila Foster aponta que a seleção da Olhos Livres tem fortes ressonâncias com a temática “Corpos Adiante”, que propõe discutir as presenças e embates proporcionados pelo corpo, tanto formal quanto tematicamente, em filmes e outras manifestações artísticas. “Os corpos assumem centralidade como matéria de criação e proposição estética tanto na ficção quando no cinema de cunho mais documental, fronteiras que também se encontram diluídas em muitos filmes”, completa a curadora. O público poderá assistir aos filmes durante a realização da 22ª Mostra Tiradentes, que acontece entre os dias 18 e 26 de janeiro.

 Os longas da Mostra Olhos Livres são avaliados pelo Júri Jovem, composto por estudantes escolhidos a partir de uma oficina de crítica de cinema realizada em agosto, em Belo Horizonte, durante a 12ª Mostra CineBH. O grupo escolhe o melhor filme, que ganha o Troféu Carlos Reichenbach e prêmio de parceiros do evento. As integrantes deste ano são: Beatriz Diamico Praça (21 anos, graduanda de Cinema e Audiovisual na UFF), Iakima Delamare  (22 anos, graduanda de Jornalismo na UFMG), Izabela Santiago Silva (22 anos, graduanda de Cinema e Audiovisual na PUC Minas), Larissa de Freitas Muniz (21 anos, graduanda de Comunicação Social na UFMG) e Maria Eduarda Martins Gambogi Alvarenga (23 anos, graduanda de Comunicação Social na UFF).

 OS FILMES

Segundo o curador Victor Guimarães, a Olhos Livres é o espaço no qual filmes e cineastas muito plurais podem conviver, por não dependerem de recortes geracionais ou ineditismo. “Realizadores que já passaram por Tiradentes uma ou mais vezes, como Felipe Bragança e Rodrigo Lima, estão ao lado de estreantes no longa-metragem, como Jean Santos e Fabiana Assis”, destaca Victor. “Mesmo em filmes de cineastas já conhecidos, o influxo de novas parcerias traz outros insumos a trajetórias autorais já estabelecidas ou promissoras”. Ele complementa que a seleção da Olhos Livres 2019 permite um equilíbrio entre trabalhos inéditos e títulos já em circulação, que ganham novas possibilidades de fruição dentro da dinâmica da mostra. “As poéticas dos seis filmes nos parecem reunir algumas das apostas mais singulares em jogo no cinema brasileiro hoje”.

 Um hibridismo entre performance e o chamamento mais direto ao real, na luta dos corpos pela sua existência, está fortemente presente em “Trágicas”, de Aída Marques. “O filme toma como eixo as mulheres das tragédias gregas e o corpo feminino que enuncia, através de entrevistas, o caminho da dor e da injustiça”, resume a curadora Lila Foster. Por sua vez, “Currais”, de David Aguiar e Sabina Colares, faz da busca pela história dos campos de concentração instalados pela ditadura varguista no Ceará um encontro entre temporalidades e formas de narrar o trauma, expressando, de forma simbólica, a perenidade da dor e da violência física impetrada pelo Estado. Já em “Parque Oeste”, de Fabiana Assis, a luta presente pela moradia se faz pela força de corpos e imagens que se afirmam e resistem a tiros, bombas e forte cerco policial.

 No caso de “Superpina”, o diretor Jean Santos trabalha com “corpos desejantes e potentes, que centram na pulsão erótica um caminho para tecer um mergulho em um mundo mais liberto”, diz Lila, que classifica o filme recifense como “comédia de costumes e fantasia futurista”. Ela chama atenção para a força similar que se desprende de “Calypso”, de Rodrigo Lima e Lucas Parente, a partir de um imaginário mítico de mulheres que retornam numa espécie de ritual cinematográfico em torno da relação tensa e transcendente entre corpo e natureza.

 Outro mito aparece em “Tragam-me a cabeça de Carmen M.”, de Felipe Bragança e Catarina Wallestein – no caso, a figura de Carmen Miranda, que assombra o processo criativo de uma atriz no seu encontro com a personagem. “Essa busca passa pela investigação do próprio corpo físico da atriz, pela modulação dos trejeitos, dos gestos e da voz”, complementa Lila.